MEMÓRIA ICONOGRÁFICA DA ESCOLA NA BAHIA

Resumo

Proposta de uma Memória Iconográfica da Escola, integrada ao Projeto de Memória da Educação na Bahia, visando constituir acervo de elementos que compõem essa instituição, com base na importância da sua referência material – arquitetura, disposição de móveis, recursos pedagógicos utilizados, regulamentos, normas de controle e outros – e da sua representação audio-visual para o conhecimento e, assim, na necessidade de  identificar, coletar, reunir e reproduzir tais elementos – plantas de edificações, fotografias de prédios escolares, fardamento, boletins e cadernetas escolares, cadernos e outros, bem como produzir vídeos com depoimentos –, preservando-os e tornando-os disponíveis à apreciação, estudo, pesquisa, de forma regular e em mostras periódicas a serem abertas com a Mostra Comemorativa do aniversário da Cidade de Salvador e finalizadas com exposição a se inscrever nos eventos dos 500 anos do descobrimento do Brasil.

 

1. Introdução

A proposta de uma Memória Iconográfica da Escola integra o Projeto Memória da Educação na Bahia , em desenvolvimento na UNEB, e tem a pretensão de constituir um acervo ilustrativo de elementos que a compõem, representam e lhe estão relacionados, refazendo visualmente o que foi a escola no passado e fixando o que é hoje, o que significa caminhar em direção ao futuro registrando as novas formas que esta toma na contemporaneidade.

O empenho em preservar a memória da educação contempla também a dimensão iconográfica da escola, e pretende-se, efetivamente, reunir elementos que delineiem sua imagem, hoje, em grande parte ainda, só passíveis de serem encontrados nas próprias instituições ou em mãos de particulares, muitas vezes dispersos e sem o acondicionamento adequado ou, mesmo, sem sequer serem vistos como documentos.

A consideração de que o recurso ao elemento visual, mais precisamente à imagem, como meio de comunicação e fixação tem caracterizado todo empreendimento cultural, sendo sobretudo uma marca do nosso tempo, sedimenta essa linha da pesquisa, cujo objeto tanto é o próprio elemento – exemplares de cadernos, materiais didáticos, boletins de notas, cadernetas de freqüência, uniformes, jornais – como a sua reprodução em fotografias, filmes, vídeos.  

A história, via imagem, da construção de uma rede escolar, enriquece e vitaliza o  Projeto Memória da Educação na Bahia, agregando-lhe uma gama de referências que não as do documento tradicional. Imagem que, por sua vez, como a de tudo o mais, é também construída – a sua produção acontece a cada nova visão que incide sobre o traço, gravura, fotografia ou objeto e o maior ou menor  acordo em torno de determinada leitura vai condicionar-se a mais ou menos próximas referências culturais. O acervo que se tem em vista, poderá permitir o acesso a essas imagens e a ampliação de leituras, contribuindo para o aprofundamento dos estudos sobre a educação na Bahia.

É na década de 80 que se intensifica o recurso à fotografia como base para a documentação histórica. Autores como Olszewski e Almeida referem sugestivas bibliografias sobre o tema e destacam-se, na Bahia, por seus trabalhos na área. A primeira, com importante estudo sobre o negro e a fotografia em Salvador, assim se expressa: Em todas as etapas históricas, desenhos, gravuras, pinturas e fotografias serviram de apoio técnico para fixar momentos e emoções.(...) Através da imagem fotográfica poderá ser possível estudar aspectos da superestrutura de uma sociedade... a fotografia não é uma simples ilustração, mas participante ativa nos levantamentos históricos.

Almeida Borges, que integrou a pesquisa para elaboração do Guia de fontes fotográficas para a história da educação na Bahia, (ainda inédito, mas de que se pode ter uma visão pelo seu artigo A importância de acervos fotográficos escolares para a história da educação, publicado pelo INEP), ressalta que  existem arquivos fotográficos valiosos, quer pela riqueza de dados disponíveis, quer pelo seu estado de preservação e conservação. (...) Quanto aos arquivos escolares, na maioria em estado bastante precário, requerem trabalhos adicionais de técnicas arquivísticas para posterior utilização. Segundo Borges, os acervos do Colégio Antônio Vieira e o do Instituto Feminino da Bahia fogem a essa realidade, permitindo consulta e pesquisas teórico-metodológicas. Entretanto, observa haver ... grande heterogeneidade no tratamento dos arquivos fotográficos quanto à organização, conservação e preservação e que muitas vezes a história dos arquivos aproxima (r) -se da história das instituições., ou seja, encontrando-se essas em ... precário estado de conservação o mesmo vai-se verificar com seus acervos.

Finalmente, o que ressalta de uma primeira aproximação de alguns dos trabalhos já realizados nessa linha, e com os quais se deverá contar, é a necessidade de que se prossiga com a sua investigação, ampliando-se o elenco de áreas. O “Guia de fontes...”, já referido, consiste basicamente na descrição das fotografias tendo por tema a escola, com o endereço das instituições em que se encontram, e deverá constituir-se em apoio fundamental para este projeto de Memória Iconográfica da Escola na Bahia. Entretanto, em nenhum dos trabalhos consultados tenta-se traçar esse fio que se pretende aqui estender, e que, acompanhado, deverá tornar mais próxima a idéia do que, desde seus primórdios, foi e vem sendo a escola na Bahia, caminho certamente que vale ser percorrido e que pode ser largamente sugestivo de ações futuras.

2. Objetivo geral
  • Constituir a memória iconográfica da escola na Bahia, localizando, recolhendo, copiando e registrando em fotografias e vídeos material que permita refazer o percurso da escola, sob as diversas formas como essa tem-se realizado, por meio de elementos – reprodução ou os próprios objetos, quando possível – que a constituam ou que lhe estejam relacionados, preservando-a e tornando-a disponível e de fácil acesso para o público.

 

3. Objetivos específicos
  1. Localizar elementos temáticos da escola
  2. Recolher (doação, compra)
  3. Reproduzir (fotografia, vídeos)
  4. Obter depoimentos (entrevistas).
  5. Tratar (catalogação, arquivamento, montagem de álbuns, painéis)
  6. Montar a linha do tempo na escola (objetos, cartazes informativos – texto da primeira lei instituindo a educação como dever do Estado, por exemplo, regulamento concernente a uniformes, separação por sexo,  critérios para abrir-se escolas e outros –fotografias, desenhos) identificando o processo de constituição de um sistema de educação, inclusive pela identificação dos elementos simbólicos para sua representação.
  7. Realizar mostras regulares do acervo, a serem inauguradas com a mostra da participação nas comemorações do aniversário da Cidade de Salvador em março de 1999.

 

4. Operacionalização

 

Para a concretização da proposta que se tem em vista foram previamente definidos os principais aspectos que se pretende registrar e estabelecidos critérios para a definição de instituições e seleção do material considerado representativo.

Com relação ao primeiro ponto, dois grandes blocos, divisão aqui feita apenas para efeito de organização dos trabalhos, foram estabelecidos. O primeiro compreende as instalações físicas – a localização dos prédios, sua arquitetura, a disposição e finalidade dos cômodos  (muitas vezes comportando locais específicos para os castigos, por exemplo), mobiliário e demais pontos abaixo identificados, podendo, por si só, constituir-se em rico material de leitura e compreensão do que foi e é a escola. O segundo relaciona-se às práticas pedagógicas e à vivência da escola.

Discriminam-se a seguir esses elementos, acompanhados da relação de elementos materiais que podem ilustrá-los (de modo direto ou, como já explicitado, mediante fotografias e vídeos de locais, prédios, salas de aula, mas também de entrevistas com professores, funcionários, alunos):

Instalações físicas

Prédios

Salas de aula

Mobiliário

Material didático
Uniformes

Material normativo

Legislação – Constituições federais e estaduais, leis, decretos: exigências para abertura de escola.  Universalização do ensino como dever do Estado. Fim da separação por sexo.
Regulamentos, estatutos – específicos das escolas

 

Práticas pedagógicas
Calendário escolar – feriados, horário, carga horária; comemorações, atividades extra-curriculares: música, teatro, artes plásticas; formaturas, convites, cerimonial.
Grade curricular  – critérios, liberdade de escolha, origem dos modelos adotados.
Métodos – obras teóricas; depoimentos escritos no caso de épocas em que não se identifiquem obras teóricas esclarecedoras.
Material didático – cadernos, livro didático.
Avaliação -  boletins, provas.
Rotina da escola – depoimentos, regulamentos.
Presença na imprensa – jornais
Estatísticas – número de unidades escolares por década e vínculo (público, privada, laica e religiosa), de alunos, professores e funcionários (sexo, cor).

 

Relacionam-se a seguir os critérios adotados para a opção inicial por instituições e seleção de material tendo em vista o levantamento de material para preservação da memória da escola.

Antiguidade
Natureza da gestão e da prática pedagógica
Especificidades ou singularidades 
Clientela
Relevância dos serviços

 

5. Procedimentos

  1. Com base no roteiro acima discriminado, localizar, coletar e tratar o material existente e disponível, o que exige a articulação com profissionais das áreas de História, Fotografia, Comunicação visual, Museologia, Arquivologia e estagiários.
  1. Proceder à montagem das fotografias, realização de vídeos – definindo-se locais, prédios e pessoas, inclusive traçando roteiro de entrevistas –elaboração de cartazes e painéis e redação dos textos explicativos.

 

6. Etapas

 

Primeira etapa

Fevereiro a Dezembro /1999
Constituir acervo inicial tendo em vista a ‘Mostra comemorativa do aniversário da Cidade de Salvador’

Segunda etapa

Janeiro de 2000  a  Dezembro de 2000.

 

7. Instituições específicas a serem pesquisadas inicialmente

A equipe de Trabalho elegeu, dentre as muitas escolas existentes, aquelas que lhes pareceram mais significativas, mais representativas do caminho percorrido.
Na amostra estão representadas escolas mantidas pelo Estado, privadas, em parceria ou com organizações dos Trabalhadores.
O Colégio dos Jesuítas da Bahia (O Colégio Real da Bahia)  criado em 1550, foi um dos primeiros da América Latina e do mundo criado pela Companhia de Jesus. A ordem, criada em 1544, chegou à Bahia junto com Tomé de Souza em 1549, quando da Fundação da Cidade do Salvador. No Colégio da Bahia existiram todos os graus de ensino: Artes, Humanidades e Teologia, sempre precedidas das classes de ler e escrever.
Com a expulsão da Ordem em 1764, implantam-se no Brasil as “Aulas Régias”, ao tempo em que eram mantidas as escolas de ler e escrever avulsas. Em 1785 tem início o funcionamento do Colégio dos Órfãos de São Joaquim, instalado a partir de 1816 no Noviciado dos Jesuítas. Em 1808, com a vinda da Família Real para o Brasil, é criada a Aula de Cirurgia, embrião da futura Faculdade de Medicina. Também o Príncipe Regente cria, em 1813, o Seminário de S. Dâmaso, reunindo as Aulas Régias avulsas existentes na cidade de Salvador.
O Liceu Provincial e a Escola Normal são criados em 1836/37, quando do início da descentralização da ação educacional para as províncias. Agregamos a estas o Centro Operário da Bahia o Liceu de Artes e Ofícios e a Escola Técnica Federal (Escola de Aprendizes Artífices) como experiências da educação para o trabalho, organizadas pelo Estado, pelos trabalhadores ou pela parceria de ambos.

  1. Colégio dos jesuítas – Faculdade de Medicina – 1550/1808
  2. Seminário de S. Dâmaso (1813)
  3. Colégio dos Órfãos de S. Joaquim- 1785/1816
  4. Liceu Provincial – 1837
  5. Escola Normal – internato (masculino e feminino) - Prédio da Joana Angélica, 1893. Prédio do Barbalho, 1934.
  6. Santa Casa da Misericórdia – Recolhimento e Orfanato. (Roda dos Expostos)
  7. Centro Operário da Bahia.
  8. Liceu de Artes e Ofícios.
  9. Escola Técnica Federal.
  10. Escola Parque/Escolas Classe.

 

Considerações finais

 

O levantamento deverá refazer o percurso da escola, sob as diversas formas como se tem realizado, desde os primeiros anos da República até os nossos dias, por meio da apresentação, em ordem cronológica, de elementos – fotografias ou os próprios objetos, quando possível – que a representem  ou que com ela lhes estejam relacionados.

A realização da mostra requer um levantamento do material existente e disponível, localização de\e contato com pessoas que possuam ou indiquem onde obter-se material; reprodução fotográfica dos mesmos; contatos com pessoas que podem dar os depoimentos e gravação dos vídeos. Montagem das fotografias, elaboração dos cartazes, painéis. Redação dos textos explicativos.

RESULTADOS ESPERADOS:

- Album de fotografias, mapas, plantas, etc;
- Realização de um vídeo
- Montagem de Mostra

 

EQUIPE DE TRABALHO

 

Jaci Maria  Ferraz de Menezes – Doutora em Ciências da Educação.
                                                      Professor Titular da UNEB
Regina Martins da Matta – Socióloga, Bolsista de Aperfeiçoamento Técnico do CNPq
Maria Angêlica Menezes de Oliveira - Jornalista
Consultoria - Ubirajara Rabelo – Arquiteto, especialista em recuperação do patrimônio
                    - Maria da Conceição Costa e Silva – Doutora em Educação. 
Estagiários

Apoio Administrativo
Gina Alves Rabêlo


Com sede na UNEB, é coordenado pelas professoras doutoras Maria José de Oliveira Palmeira e Jaci Maria Ferraz de Menezes, contando com recursos do CNPq. Projeto integrado de pesquisa sobre a história da Educação na Bahia, com o qual se busca conhecer, em diversas regiões do Estado, as formas de expansão e institucionalização da educação, as relações entre essas e as iniciativas de educadores, as propostas de inovação no seu curso e, principalmente, as demandas e instituições pedagógicas propostas / realizadas pela população para educar-se. Tem como fio condutor a tentativa de  conhecer o grau de democratização da  educação pública no Estado da Bahia, isto é, o grau de consolidação do  direito à educação no Estado. Estuda  as políticas públicas e as instituições escolares estatais assim como  formas alternativas  de aprendizagem e/ou   movimentos sociais de busca da escolarização pelas classes populares. Propõe como resultado dos trabalhos a organização de uma Memória da Educação na Bahia na UNEB, consolidando um grupo emergente de pesquisa que reflita sobre educação na Bahia e produza conhecimentos nessa área.
O Projeto Memória da Educação na Bahia retoma  projeto de pesquisa iniciado na Fundação de Pesquisas - CPE. Esse projeto estudou, naquele momento inicial, a educação na Bahia no período 1920 - 1980 e as principais propostas para sua democratização, de que resultaram várias publicações. Hoje, está centrado-se, hoje, em duas grandes finalidades:
- Transformar o projeto inicial em um projeto integrado, articulando professores de História da Educação de outras unidades da UNEB e de outras Faculdades de Educação do Estado, o que já se encontra em curso.
- Introduzir a perspectiva do movimento social e a dimensão étnica nos estudos, procurando entender o ponto de vista da população na demanda e no acesso à escola e captar a diversidade de interesses em torno da mesma.

OLSZEWSKI F., S. A fotografia na cidade do Salvador. Salvador: Fundação Cultural do Estado, 1989.

BORGES, S. A importância dos acervos fotográficos escolares para a história da educação. INEP. v. n. mês, 1994.

Ver: MOURA, M. de Souza. A fotografia na Bahia. Apesar das perdas, um retrato nítido de mais de um século in Catálogo FOTOBAHIA. 1979 e TEIXEIRA, Cid, TEIXEIRA, Cydelmo, MARCONI, Rino. “Memória fotográfica” in A grande Salvador, posse e uso da terra. Projetos urbanísticos integrados. Salvador: Secretaria de Saneamento e Desenvolvimento Urbano – CEDURB. 1978.

 

OLSZEWSKI F., S. Obra citada.

Essa pesquisa, financiada pelo CNPq (1991) e INEP (1992), foi coordenada pelo professor L. Felippe Serpa. Contou, na sua primeira fase, com os professores pesquisadores Stela Borges e Adélia L. Portela de Magalhães e na segunda com Eliana M. Brenner e Rino C. Marconi, tendo como bolsistas Josélia B. de Aguiar, Neurilene M. Ribeiro, Patrícia de F. Pinheiro e Rinaldo C. N. Leite. Uma síntese da etapa inicial dessa pesquisa, “Notas da pesquisa para de fontes fotográficas para o estudo da educação na Bahia”, foi publicada pela Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v72, n.172, dez. 1991.

BORGES, S. Obra citada.

 

PRODUÇÃO VINCULADA

Ubirajara Dantas Lemos - O Colégio dos Jesuítas: 450 anos de História

Washington Cesar Messias, Marilton Nunes Pereira e Jaci Maria Ferraz de Menezes - Memória Iconográfica do Colégio Roberto Santos

 

 

Visite o

Álbum Virtual

Colégio dos Jesuítas